Eu vi a Marina sim







          Inevitável como o dia, lá estava ela com uma cara de malvada, meio nua porque capa de revista não deixa ninguém nua inteira.

          Vou comprar! Comprei.

          Folheei com avidez de sem vergonha, só pra ver o que a Marina tem.

          O primeiro choque foi a extrema beleza.

          Não, ainda não a Marina.

          Ela estava presente sim, mas não foi ela que me enfeitiçou naquele momento absurdo. Foi a beleza.

          A beleza que veio até mim de todas as cores e todas as luzes, de todas as flores e das ambíguas palavras, grafando vermelhos, brancos e bilhões de matizes que me fizeram perder o prumo no primeiro momento.

          O meu sem vergonha se escondeu de medo e deixou de frente, no campo de batalha, um humilde homem sem defesas.

          Depois veio a velha sensação de lirismo.

          Não, ainda não a Marina.

          Meu poeta, meio que dormindo em disfarce, arregaçou as mangas.
 
 

_Ave Marina, Cheia de graças,

tão belo é o fruto desse teu ventre,

próprio, doce, tenro, lúdico, 

nu de todos os vícios,

Saudade, Marina,

Do dia que nunca te conheci..._
 
 

          Depois me veio ela.

          Olhar de penumbra,  dobras perfeitas, cintura impossível, jeito maroto de ensinar ao fotógrafo um jeito casual de ser sensual, sem absolutamente sê-lo. Ela estava ali, simplesmente.

          A nudez de uma dignidade borbulhante me oferecia a visão do belo, no exato momento de senti-lo, na dimensão perfeita de entende-lo.

          Será então assim o modo perfeito de sensibilizar uma imagem?

          Vi uma mulher brasileira, apaixonante/apaixonado, poeticamente descrita em imagem, devidamente transcrita em sentimentos profundos e inimagináveis.

          Que  dizer do olhar, no olhar profundo?

          Que fazer do mistério de um quase sorriso?

          Como ficar estático diante da poesia de um gesto simples?

          Como não se emocionar diante do cabelo sobre os olhos, ou dos sinais entre as coxas, sem a maquiagem boba dos estetas?

          Preto-branca-colorida, zum de passarada no ouvido, inventário de imagens revividas, de outras mulheres, de outras paragens, de tantos sons, de tantos delírios, de tantas viagens...

          Não, não era a Marina quem eu vi.

          Eu vi a saudade que se perdia em labirintos em meu peito, uma saudade incrível de reencontrar a beleza pura, sem os estereótipos da moda, sem detalhes físicos enaltecidos pela leviandade dos pulhas, sem patrocínios porcos, sem ruídos adventícios.

          O poema fotográfico ficou burilando meu juízo.

          Curvo-me respeitosamente diante da mulher Marina, da mulher menina, do seu profundo estar do lado, do lado de lá das quimeras.

          Marina? Ah! Primaveras!

          Nada mais. Nada.
 


 
 

Vito Cesar

 


 
 
 

Voltar